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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

GAVIÃO DE PENACHO ( "GRITO DE GUERRA" DA ACADEMIA!)






 


 

O estar longe tem destas coisas: bate-nos a saudade , deitamos uma lágrima ao ouvir um fado piroso mesmo mal cantado , acabamos por gostar de bacalhau!

As duas primeiras experimentei-as por diversas vezes ( sim mesmo a lagrimita ao canto do olho, Deus me perdoe!) agora acabar por salivar diante do fiel amigo nunca me tinha acontecido.

E isto por uma razão que se multiplica por mil e uma, tantas quantas as formas de confecioná-lo: não gosto de bacalhau!!

 

Mas a companhia era boa e aquele convite assim à última hora para um jantar da Academia do Bacalhau veio mesmo a calhar. Se bem que ignorasse completamente o que era isto de Academia do Bacalhau!!!

Pois bem, fui, gostei ( repeti o bacalhau, alguém acredita????!!) e aprendi.

A ideia de criar uma associação de portugueses na diáspora que reunisse e congregasse regularmente a comunidade portuguesa, surgiu na África do Sul em 1968.

Se foi a saudade, o fado ou o bacalhau que os juntou, desconheço. Mas ali se criou de imediato um eixo de lusofonia que extravasou as fronteiras da África do Sul para se espalhar pelos cinco continentes contando neste momento 51 Academias.

Mas o que é que se faz na Academia do Bacalhau para além de, naturalmente , se comer o dito?

Em primeiro lugar estabelecem-se laços, criam-se as condições de adaptação para os que vão chegando, reinventa-se um pedaço do Portugal longínquo. As iniciativas sucedem-se e , nem de longe nem de perto, se resumem às jantaradas mensais ( aliás sempre muitíssimo concorridas ao que sei!!).

Aqui se fala português ( o que para as segundas e terceiras gerações é , não raro , das poucas possibilidades de contacto com  a língua fora do seio familiar), aqui se ouve poesia , aqui se debatem questões de carácter interno da comunidade e de Portugal, aqui se aplica a fórmula “ um por todos , todos por um “.

Nos recentes dias de angústia perante os sucessivos raptos e em que a comunidade se sentiu ameaçada, a  Academia foi refúgio e alento para muita gente . Debateu-se o retorno ou  a permanência, a segurança nas escolas e nos locais de trabalho, trocaram-se contactos, disponibilizaram-se meios.

Não é à toa que se tratam por “compadre” e “comadre” à boa maneira rural lusitana! A Academia do Bacalhau é uma aldeia de Portugal transplantada e replicada por 51 países.

Mas não se pense que esta associação se fecha em si mesmo, que se enclausura num ghetto . Não.  Todas as Academias têm um papel social e benemérito , apoiando instituições de solidariedade dos países onde se encontram.

Estas instituições não têm que ter, necessariamente raízes portuguesas . As Academias não estão  de costas voltadas para as sociedades que as acolheram!

Assim a Academia do Bacalhau de Maputo apoia a Casa do Gaiato da cidade ( cuja verba o governo português cortou!) e uma associação de jovens mães na Matola. Os contributos de empresários portugueses e dos próprios eventos, vão direitinhos para estas obras.

No último jantar que decorreu no hotel Girassol – o único a ter um buffet de bacalhau semanal!- , foi eleito o presidente da Academia para o próximo ano. António David , após a sua reeleição , tratou de imediato de organizar e agendar a festa de Natal da comunidade portuguesa, lembrando que a permanência dos portugueses em Moçambique só é possível com uma estreita ligação aos moçambicanos e como tal alertou para a necessidade de alargar a festa também às famílias dos colaboradores de cada um dos presentes.

Aliás eram vários os Moçambicanos presentes e … compadres de pleno direito da Academia. É que o coração tem uma só cor, bate a um só compasso e… qualquer um pode gostar de bacalhau!

E de sentir saudade ao ouvir um fado.

 

Um gavião de Penacho, pois!!!!

 

 

 

 

 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

DIREITO E DEVERES DUMA GREVE




Não posso dizer que sempre fiz greve!!  Sou  consequente com o que penso e com o que faço, como tal umas vezes achei que devia aderir outras não.

No entanto considero que, de todas as conquistas de Abril  a mais importante foi o direito à contestação e à liberdade de expressão. Como tal respeito todos os que em qualquer altura lançaram mão da sua cidadania e da liberdade reconquistada, para protestarem. Nem sempre os seus protestos foram os meus, mas respeito-os todos !

Porém há situações em que outros valores mais altos que a contestação, se erguem e devem  ser tidos em conta.

Falo do valor das palavras tão fortes e esquecidas como: dever, solidariedade, humanitarismo, cidadania, Pátria.

E para os que nesta altura pensam que , por uma lobotomia à distância passei a ser MRP , esclareço desde já: A greve geral em Portugal é mais que um justo direito. É um dever nacional para resgatar o país das mãos de incompetentes vendilhões dum país com 900 anos de História da qual, a maioria dos que nos governam, não sabe sequer uma centésima parte. Pese embora a  eterna bandeirinha nacional nas respectivas lapelas. O que até faz sentido porque quando agem ou abrem a boca duvidamos da sua condição nacional.

Posto este ponto em claro , esclareço o resto.

Encontro-me num país onde a tensão cresce a cada minuto. E se para mim, que vim e logo regressarei, sem bagagem nem nada que me prenda, o quotidiano é incerto, imaginem para as centenas ( atrevo-me a dizer milhares) de portugueses que aqui estão radicados!!

Gente que vive no terror de que os filhos lhes sejam tirados. Gente que vive a olhar por cima do ombro de cada vez que sai de casa, se dirige ao trabalho. Gente que fez crescer esta economia  e que de repente teme  que , uma vez mais, a História se repita. Gente que foi, muitos deles, rechaçada de Portugal por quem os deveria governar e proteger .

Agora façam um novo exercício de imaginação e coloquem-se na pele destes novos emigrantes que recebem a mensagem do seu Consulado dizendo que hoje, 8 de Novembro, estaria fechado devido à greve geral em Portugal!!!!

É duma falta de sentido do dever para com os seus concidadãos que nem tenho palavras para descrever.

“ –Ah pois e numa situação extrema o que é que pode fazer o Consulado?” – ouvi eu.

É pá se numa situação extrema não pode fazer nada, se numa situação de tensão fecha as portas e adere a uma greve a 9000km de distância, deixando desamparados ( pelo menos moralmente o que em situações de crise é fundamental !) os que são a razão da sua existência,  então não serve de coisíssima nenhuma e pode perfeitamente ser fechado!! Ora aí está um belo corte nas despesas!!

A comunidade portuguesa em Maputo hoje está revoltada e com razão. Não contra a greve que é justa e visa um objectivo claro: resgatar o país das mãos de quem o tenta vender ao quilo.
Mas contra os que , mais uma vez não nos representam, não nos governam, não nos dão Pátria.

Mesmo à distância de 9000Km!!!

 

 

domingo, 3 de novembro de 2013

MENINOS DE ÁFRICA: JÚNIOR










_ Olha o maior crava da cidade!! Mas é giro este puto!!

Um comentário destes arrasa qualquer ego maluco que tem a mania de que (ainda ) é repórter!!!
Pronto!! Lá fui eu enganada mais uma vez!!! Sou muito ingénua!!!
Mas…
Ok, o puto passa avida a pedinchar . Curiosamente a mim nunca me pediu dinheiro mas sim comida, mas também sempre o apanhei a horas da refeição e perto de restaurantes. Mas pronto, dou de barato que tem , agora que me falam disso, um estilo muito próprio.
Mas…. E o que sempre me matou ao longo da vida foi isto: mas….
Não é o facto de andar a pedir que me leva a inclui-lo no rol dos meninos de África. É o facto de, com necessidade ou não, o fazer assim duma forma quase profissional.
Manha? Será! Acredito mesmo que seja. Mas a manha aprende-se e por regra é fruto da necessidade, aquela coisa que nos aguça o engenho por forma a sobrevivermos.
O garoto tem ( diz ele!) 12 anos mas aparenta mais.
Circula numa bicicleta que em tempos deve ter sido nova.
“ Ora pois, lá está!”
- Ouve cá Júnior, tas aqui a pedir e andas de bicicleta ? ( sim sou ingénua mas não sou parva!)
O garoto tem um ar de triunfo nos olhos:
- Foi um amigo que me deu. Ele é português como tu, sabes?
- Um amigo?
- É!! Ele é muito rico! O pai deu-lhe uma playstation  e patins, e bicicleta. Agora voltou para Portugal e deu-ma.
Há um certo orgulho na voz.
- Quando voltar vai-me dar outras coisas.
Faço-lhe as perguntas clássicas: pergunto-lhe pelos pais, pela escola, onde mora…
Diz-me que a mãe um dia foi-se embora e deixou-o sozinho em casa. O pai já tinha ido.
- Para onde?
Encolhe os ombros: não sabe. Era pequeno na altura. Aí uns cinco anos talvez. Nessa altura ainda não andava na escola.
_ Ficaste com os teus avós?
- Não com um vizinho. Agora vivo com uma tia e dois irmãos.
Ok alguém da família. Faz sentido.
_ Ela não é bem minha tia e eles também não são meus irmãos. São filhos dela percebes?  Toma conta de mim e pronto. Mas é muito chata.
- Chata?
- É. Não quer que eu saia e isso. E eu fujo.
Já tinha percebido que a rua era o seu mundo. Mas então e a escola?
- Ando na escola. Mas não gosto.- responde-me.
Evito ( a custo!) o velho cliché associado à educação e blá, blá.
Se calhar por isso apressa-se a dizer:
- Mas eu sei que tenho que estudar. Só que não gosto de estar ali fechado, sabes?
Ora se sei!! Quanto é melhor andar de bicicleta pelas ruas de Maputo.
É na rua que aprenderá a ser homem. Possivelmente na forma de Xico Esperto ou bem pior.
Mas para já limita-se a ser um puto giro que corre pelas ruas de Maputo montado num sonho que alguém lhe deu.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

NÃO HÁ AMORES PERFEITOS (PEDAÇO)





Bocelli enchia a casa do seu canto mágico. Maria deixou-se levar pelas palavras que pareciam nascer do ar, alheando-se de tudo o que a cercava. “Com té partiró” – repetia o cantor e ela perguntava-se se alguma vez tinha havido alguém com quem quisera fazer essa viagem de vida, assim tão desprotegida e tão confiante como adivinhava no poema que fazia vibrar todo o seu ser, a casa, os móveis, pondo em risco anos de boa vizinhança.
Artur habituara-se desde o ventre às melodias que a mãe cantava a par do cantor, muitas vezes sobrepondo-se a ele, outras limitando-se a ouvi-lo alto, sempre alto, como se quisesse calar outras vozes que teimavam em assaltá-la, assustando-a. Cantava para espantar os medos. Sempre assim fora, seguindo os conselhos de sua avó: “Quem canta não espanta só os seus males. Espanta os fantasmas, os medos!”
E ela tinha tanto medo, tanto!! Às vezes dava por si enroscada aos pés da cama do filho, olhando-o, embalando-se em melodias infantis, não para ele, mas para si mesma, receando o momento em que a magia se quebraria para sempre. Reaprendera a rezar quando Artur nascera. “Senhor que eu viva o tempo suficiente para ver os filhos do meu filho” era a oração que lhe saia quando o olhava assim, plácido, adormecido, indefeso e feliz por saber que ela estava ali.
Mas até quando? Até quando?
Um dia Lena tinha confessado, no meio das lágrimas pós divórcio, que tinha medo duma série de coisas, entre elas de morrer e as filhas encontrarem-na sem vida, desesperadas no seu abandono precoce. Maria rira de todos os receios: de que as garotas gostassem mais da mulher do pai do que dela, que deixassem de a respeitar, que tivessem pena da mãe.... mas daquela imagem não fora capaz de rir nem comentar! Limitara-se a recolhê-la dentro de si num silêncio que a amiga não notou mas que lhe abriu um vazio, um frio no peito!! “Que eu viva Senhor, por ele, apenas por ele. Deixa-me vê-lo fazer-se homem. Depois... bem depois é a Tua vontade que tem que ser feita!”
Há muito que sabia que a sua, não seria uma vida longa. Soubera-o nos primeiros meses de gravidez.
“É um risco enorme, minha senhora! Ainda vai a tempo. Nestas circunstâncias não há médico nenhum que lhe recuse a interrupção da gravidez” - afirmara o médico afagando-lhe a mão.
Sentira como se tivesse tocado alguma coisa uma viscosa, infecta e retirou-a bruscamente. Sabia que o médico não falara por mal. Pelo contrário: dissera-o com um certo peso e a amargura na voz, talvez estudada e não sentida. Mas nem essa piedade a tocara. Odiou-o, como se fosse ele o responsável por essa massa informe que lhe invadia o cérebro inexoravelmente e que em qualquer altura a poderia matar. A ela talvez, mas ao seu filho não!! Aquela coisa que a minava, que lhe comia os dias de vida a que tinha direito, não contava com a sua força de vontade, o seu desejo de ser mãe, de ver esse pequeno ser, que seria um duplo presente de Deus. Ela havia de sobreviver, de criar o Artur dos seus sonhos, o homem bom que, a seu jeito, mudaria o mundo, mesmo que fosse apenas o restrito mundo que era o seu.
E vencera!
Não estava ele ali belo e sereno a provar que há poderes mais fortes do que o mal, a doença, o ódio ou a repulsa? Fora o amor que a mantivera viva. O amor a esse filho que  era dela, só dela.
Do pai de Artur, não lhe restavam recordações. Apenas cheiros e sensações que a agoniavam, mais do que todos os enjoos matinais. A lembrança era suja, repelente, mas o resultado era tão puro, que havia vezes que quase lhe perdoava a humilhação, a dor, a raiva, o ódio. Tal como na história, este seu Artur era também, filho do engano, do estupro, da vergonha. Mas tal como a lenda, revelara-se puro, inocente, sua alegria, seu orgulho, sua razão de viver. Mas até quando? Até quando? “Com té Partiró!” não haveria ninguém para a acompanhar nessa viagem, tal como até ter o seu filho, não houvera ninguém para partilhar esta outra, que se dizia ser apenas passagem para uma melhor.
Ah avó, avó! Como tinhas razão nessas máximas que muitos achavam chavões, lapalissadas: “Nascemos sós e morremos sós. É a lei da vida”. Mas avó, quando se nasce têm-se dois braços abertos à espera. Quando se morre o vazio é o único que nos acompanha! O vazio e o medo!
Maria lamentava não ter a fé de sua sábia avó, tão serena, tão confiante!
Voltara a frequentar a igreja às escondidas. Não se atrevia a que comentassem essa sua súbita necessidade de conforto, de segurança, que apenas um Ser Superior lhe podia dar. Porque tudo se resumia a isso, não era? Ao medo da morte. Fora por isso que o Homem inventara um Deus. Ou não?
Levantou-se de mansinho com um cansaço que não vinha do corpo mas da alma, e desligou Bocelli, cansado decerto de cantar vez e outra a mesma melodia. Quase lhe pareceu ouvir um suspiro contido da vizinha de baixo. Sorriu! Tinha que se deixar destas aventuras. Afinal a pobre senhora, uma velhinha amorosa sempre pronta a ajudar, não tinha culpa dos seus medos, da sua solidão, da sua morte anunciada. Que horas eram, afinal? Quase meia-noite! Que desrespeito! Amanhã levar-lhe-ia uma dúzia de gerberas. Sabia que a vizinha adorava as cores fortes das flores. Amanhã! Se o amanhã ainda chegasse.
Espreitou o quarto do seu filho, onde a luz de presença lançava sombras que aquietavam os terrores nocturnos que de tempos a tempos surgiam e o levavam a entrar dum salto na sua cama, enroscando-se no seu corpo e escondendo a carita no seu pescoço. “Shiu, já passou! Foi apenas um sonho mau! Já passou” e afagava-lhe a cabeça ouvindo-lhe a respiração acalmar-se lentamente, até o sono o vencer de novo, apaziguador e sem sobressaltos.
Rodeou o seu próprio corpo que tremia, engoliu as lágrimas e tentou tranquilizar-se “Vai passar, vai passar. Um dia tudo não será senão um sonho mau. Vai passar!” Mas o sono chegou tardio e repleto de sonhos. A si mesma não conseguia embalar-se.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

MENINOS DE ÁFRICA - LAURA









Se há coisa que me arrebata, que me enche a alma , é esse tratamento de “Mãe” nas ruas.
É como se, de repente por qualquer milagre, todos os meus sonhos se se materializassem e eu pudesse abraçar toda a humanidade.
Gosto de gente! Gente que nos olha no fundo dos olhos e nos despe, vendo o que nem mesmo nós conseguimos enxergar.
Gosto e perco-me sobretudo no olhar límpido das crianças. Umas vezes sorridente, outras ocultando dores profundas, por vezes desafiador, mas sempre assim: límpido , verdadeiro, claro mesmo nos rostos mais escuros.

Ela chega até mim do outro lado do pequeno mureto que separa a esplanada da rua. Tem o cabelo preso por uma fita , que não é vermelha, antes rubra da cor das acácias e que faz contraste com o negro brilhante do cabelo.
Nas mãos o já habitual cestinho onde repousam meia dúzia de saquitos que contêm outros tantos amendoins torrados.
Não me pede nada. Apenas estende o cesto e diz:
- Mãe!
Abano  cabeça num não mudo e desvio o olhar. Mas continuo a olhá-la pelo canto do olho.
Não se mexeu apenas sorriu e o sorriso dela coincidiu com um enorme relâmpago. Fiquei na dúvida qual dos dois terá iluminado a noite.
Ela tinha-me derrotado e sabia-o. Estendeu-me de novo o cesto.
- Vá lá, está bem! Quanto?
- Cinco meticais, mãe.
Reparo agora que tem uma mochila às costas.
- De acordo se me deixares fotografar-te. Pode ser?
Faz um ar falsamente envergonhado onde adivinho uma coqueteria que vai fazer estragos daqui a anos. A ideia faz-me rir e acho que assustei os meus companheiros de esplanada com a gargalhada vinda do nada. Só ela entendeu a linguagem muda  de cumplicidade que se gerou  entre ambas,
Comecei a fotografá-la.
- O meu nome é Mané e o teu?
De novo as pálpebras baixando, as longAs pestanas tocando-se.
- Laura.- responde num fio de voz.
- Ok Laura. E diz-me cá que fazes aqui a estas horas, eihn?
Ela responde-me como se tivesse descoberto que esta mãe é um bocadinho retardada.
- Vendo.
- Mas andas na escola , não? –aponto a mochila.
Acena com a cabeça, agora bem mais à vontade enquanto disparo a câmara do iphone .
- Que idade tens?
- Oito anos.
Como qualquer rapariguinha africana  aparenta bem mais.
- Ouve cá e onde moras?
- Na Matola.
- É pá mas isso é longe!!! Como é que vais para lá a estas horas?
- De Xapa.
- Sózinha?!- e de repente as imagens de raptos , de perigos assaltam-me a imaginação e atraiçoam-me a voz.
- Com as minhas amigas!
Que devem todas ter mais ou menos a mesma idade!
Olhámo-nos de novo e podia jurar que me contou assim em segundos, tudo o que precisava de saber sobre esta África onde todas somos mães de meninos sorridentes.

VOLTAR A ÁFRICA - UM PARAÍSO AO NASCER DO SOL





Dizia alguém muito querido que " os verdadeiros paraísos são aqueles que se perdem!"
Tinha razão, sem dúvida, no que toca aos paraísos dos afectos, aos edens de alma.
Mas os outros, os que se descobrem por vezes em locais tão inóspitos e improváveis... ah esses não há como perdê-los! Quando os descobrimos ficam-nos tatuados na memória e mesmo que estejamos longe , saber que permanecem ali é um bálsamo.
Moçambique tem-me oferecido muitos desses pequenos pedaços de paraíso, na forma de paisagens deslumbrantes, sejam elas de praias a perder de vista ou de planícies que parecem não mais acabar.
O grande perigo  destes espaços idílicos, quase virgens, francamente selvagens, é a transformação que sofrem à mão do homem.
Queremos tudo: a beleza e o conforto, a aventura e a segurança e nem sempre conseguimos a simbiose que permite que um não destrua o outro.
Mas mais uma vez este país me surpreendeu!
Em Chizavane, a poucos quilómetros de Maputo ( se bem que aqui as distâncias pequenas são sempre de três dígitos) fica um lugar  mágico.
Integrado numa paisagem magnifica , o Lodge Nascer do Sol consegue essa coisa quase impossivel: oferecer requinte e conforto em plena harmonia com a beleza que a Natureza lhe ofereceu.
Com uma envolvente e uma decoração falsamente simples, é um lugar ideal para namorar, escrever, fugir do Mundo, encontrar-se ou perder-se.
Propriedade de dois portugueses cansados da crise cinzentona e eterna do velho continente, Nascer do Sol representa uma mudança de vida .
Para os que o visitam , o Lodge representa uma pausa na realidade, um pequeno roubo feito ao quotidiano, um afago a si próprio, uma pausa de paz , mar e sol.
 Aqui podia ser feliz!






Um mimo , não acham?


Esta era a vista da minha "casinha"





terça-feira, 22 de outubro de 2013

DE VOLTA A ÁFRICA : TERRA VERMELHA


Terra Vermelha

 

De vermelho

 que se tinjam apenas as acácias

Rubras e belas

Mas suaves .

Do vermelho

apenas a terra barrenta

Que os pés descalços pisam

Que faz germinar as colheitas e é vida .

Do vermelho do sangue

nem rasto nem imagem.

Nem lágrimas nos rostos dos meninos

Nem chagas abertas na carne.

Do vermelho do sangue

Não falem as armas

Nem os homens.

Porque é o sangue que

Mata a terra.

Mesmo a que é vermelha.

 

Confesso a minha mais profunda ignorância da história de África, quer recente quer mais remota, mesmo daquela a que chamávamos colónias.

Sempre tive a ideia que nós europeus chegámos com régua e esquadro e, cá vai disto, marcámos fronteiras sem ter em conta nem a estrutura social existente nem os conflitos ancestrais.

Não sei se esta será a razão basilar para que o continente africano se encontre permanentemente em convulsão, aberta ou latente.

Mas não aceito a teoria simplista de “ eles são mesmo assim”!

Como dizia o Fausto “a guerra é a guerra” e o sangue quando escorre, por mais negra que seja a pele , é sempre vermelho.

Os recentes acontecimentos em Moçambique, embora não totalmente inesperados pelo menos para os que aqui residem, deixaram perplexa  a sociedade estrangeira  sedeada em Maputo.

Logo agora que o país se estava a erguer! Agora que os investimentos começavam a ter consistência , que o desenvolvimento era visível em cada esquina, em cada cidade, logo agora …

Não creio que se regresse à luta armada e à guerra civil. Há demasiadas memórias do que foi esse período para que se (re)cometam os mesmos erros.

Mas há coisas que estão ainda longe de estarem perfeitas ou mesmo bem. E essas é preciso resolver urgentemente. No silêncio e não com o barulho de artilharia.

Estou em crer que este país será grande e realmente independente. Independente dos ainda paternalismos coloniais que persistem, das guerrilhas de facções cujo único objectivo é o poder pelo poder.

Eu acredito em Moçambique.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

JOTINHAS E CIA



Hoje faço um interregno nas crónicas africanas ( que audácia tratá-las assim!!!) para esvaziar a alma de toda esta angústia que mesmo longe não me abandona.
Dizia Pessoa que"... falta cumprir-se Portugal."
Eu, que de Pessoa não tenho nem o rasgo nem a clarividência, limito-me a dizer : " Falta cumprir-se". Tudo!
Porque o que hoje é irrevogável passa a fazer-se, porque o que de momento é apenas temporário passa a eterno, o que "...nem pensar" descamba em "...tem que ser" e por aí fora.

Já não me atrevo a dizer que se perdeu a vergonha. Só se perde o que se possui e os nossos governantes nunca a tiveram.

Aliás o que se pode esperar de homens ( e mulheres, está bem de ver ) cuja única escola foram as fileiras das Jotas enquanto iam burilando meia dúzia de cadeiras ( alguns nem isso como é do conhecimento geral ), para conseguirem um canudo e com ele um título que não é mais que honorífico, de doutor, engenheiro, arquiteto.

Da vida, do mundo do trabalho, da sociedade, do povo e do país que governam sabem ZERO!

Tudo o que debitam aprenderam-no nas fileiras, nas máquinas ideológicas dos partidos.
Fazem lembrar a Mocidade Portuguesa ou a Juventude Hitleriana, com as consequências que se conhecem quando, finalmente maduros, tomam o poder.

Quem é esta gente que nos governa? Que elite política é esta?
Estou em crer que muitos nem o programa do seu próprio partido alguma vez lhes passou pelos olhos.

Em tempos remotos, quando ainda havia políticos dignos do nome e da função, estes eram escolhidos depois de terem dado provas, nas diversas áreas, da sua competência. O que os movia essencialmente, era a causa pública. Existia um espírito de abnegação e sentido de dever.
Evidentemente que não eram a Santa Casa da Misericórdia! Evidentemente que eram remunerados! Mas jamais iriam aplicar medidas de dura contenção aos outros, defendendo para si as subvenções ou os privilégios .
Estes Jotinhas como sabem que quando caírem do poleiro ficam sem chão que se veja ( ok haverá sempre assim uma fundação ou uma empresa para levar ao charco e comprarem um paraíso qualquer numa ilha remota!... ) , agarram-se ao seu mesquinho estatuto e às regalias, pouco se importando com o povo que deviam representar.
Pergunto-me para quando uma bela duma revolução. Eu cá estou preparada!!!

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

VOLTAR A ÁFRICA- HUMILHADA MAS NÃO OFENDIDA





Nunca gostei de fazer má figura! Quando sinto que não sou a melhor desisto. Foi assim com o Karaté, é assim com a natação, com o ponto de cruz ...
Daí que depois desta ida ao Krugger estou em crer que nunca mais toco numa máquina fotográfica.
O post de hoje tem a exclusiva assinatura do meu amigo ( recente mas mesmo assim) Dário Prates , oficial destacado para a cooperação em Maputo, que não só foi um excelente guia como nos brindou com uma reportagem de nível profissional.
Nem me atrevo a colocar legendas pois uma imagem vale mais que mil palavras, não é assim?













domingo, 13 de outubro de 2013

VOLTAR A ÁFRICA : DIÁSPORA










Regressar a África para muitos é o abrir duma chaga nunca fechada e que sangra ao mais pequeno toque.
A memória é coisa que perdura muito para além do mero querer consciente. Assalta-nos quando menos esperamos e em muitos casos , inflige-nos a dor que pensávamos estar esquecida.
A toda poderosa crise Europeia ( que se estende a todo o Ocidente desenvolvido, diga-se em abono da verdade!) tem vindo a obrigar ao êxodo  rumo a outros continentes.
África foi em várias fases da nossa História, o destino escolhido.
Primeiro como punição, degredo, alternativa a uma vida sem liberdade. Eram os primeiros anos do século passado!
Depois o El Dourado da década de cinquenta , o início da grande vaga do colonialismo que descambou em conflito aí por volta de 61.
Seguiu-se a guerra que , com todos os seus horrores, deixou em muitos o amor pelos grandes horizontes, pelos pôr-de-sol vermelho, pelas melodias, pelo encantoda terra vermelha de África!
Mas esta é uma mãe caprichosa que não raras vezes fustiga os filhos que a amam!
A década de sessenta viu chegar os retornados a Portugal. Palavra oca  de sentido para a grande maioria que nunca tinha, sequer, colocado os pés na Metrópole e por isso não retornavam a lado nenhum! Pelo contrário eram escorraçados, refugiados, banidos do único país, do único continente que conheciam.
Hoje os portugueses voltaram a escolher Moçambique como destino para a diáspora que o seu país lhes impôs .
Estão um pouco por todo o lado: com pequenos e grandes negócios, tentando estabelecer parcerias e acordos.
Mas a visão do seu papel neste país é bem diferente da que havia nos idos de sessenta e os que não entendem a dinâmica e o ritmo próprios de Moçambique, tendem a fracassar na sua  procura dum futuro melhor.
Voltámos a ser emigrantes e a África que outrora foi portuguesa é um destino de eleição.
Alguns tornaram-se agora verdadeiros retornados.
Muitos não entendem o que se passou nestas últimas décadas em que alimentaram um quimérico sonho de imobilidade. O despertar para a realidade acaba por ser doloroso e violento. Evidentemente que a terra que deixaram já não existe! São os que ficam pairando por aqui , um pouco à deriva e que, em muitos casos, acabam por voltar a Portugal com a derrota na bagagem.
Outros , pelo contrário, abraçam este país que começa a renascer, como um enorme e maravilhoso desafio. Estes serão os vencedores. Assim o permita a Mãe África!