segunda-feira, 14 de outubro de 2013

VOLTAR A ÁFRICA- HUMILHADA MAS NÃO OFENDIDA





Nunca gostei de fazer má figura! Quando sinto que não sou a melhor desisto. Foi assim com o Karaté, é assim com a natação, com o ponto de cruz ...
Daí que depois desta ida ao Krugger estou em crer que nunca mais toco numa máquina fotográfica.
O post de hoje tem a exclusiva assinatura do meu amigo ( recente mas mesmo assim) Dário Prates , oficial destacado para a cooperação em Maputo, que não só foi um excelente guia como nos brindou com uma reportagem de nível profissional.
Nem me atrevo a colocar legendas pois uma imagem vale mais que mil palavras, não é assim?













domingo, 13 de outubro de 2013

VOLTAR A ÁFRICA : DIÁSPORA










Regressar a África para muitos é o abrir duma chaga nunca fechada e que sangra ao mais pequeno toque.
A memória é coisa que perdura muito para além do mero querer consciente. Assalta-nos quando menos esperamos e em muitos casos , inflige-nos a dor que pensávamos estar esquecida.
A toda poderosa crise Europeia ( que se estende a todo o Ocidente desenvolvido, diga-se em abono da verdade!) tem vindo a obrigar ao êxodo  rumo a outros continentes.
África foi em várias fases da nossa História, o destino escolhido.
Primeiro como punição, degredo, alternativa a uma vida sem liberdade. Eram os primeiros anos do século passado!
Depois o El Dourado da década de cinquenta , o início da grande vaga do colonialismo que descambou em conflito aí por volta de 61.
Seguiu-se a guerra que , com todos os seus horrores, deixou em muitos o amor pelos grandes horizontes, pelos pôr-de-sol vermelho, pelas melodias, pelo encantoda terra vermelha de África!
Mas esta é uma mãe caprichosa que não raras vezes fustiga os filhos que a amam!
A década de sessenta viu chegar os retornados a Portugal. Palavra oca  de sentido para a grande maioria que nunca tinha, sequer, colocado os pés na Metrópole e por isso não retornavam a lado nenhum! Pelo contrário eram escorraçados, refugiados, banidos do único país, do único continente que conheciam.
Hoje os portugueses voltaram a escolher Moçambique como destino para a diáspora que o seu país lhes impôs .
Estão um pouco por todo o lado: com pequenos e grandes negócios, tentando estabelecer parcerias e acordos.
Mas a visão do seu papel neste país é bem diferente da que havia nos idos de sessenta e os que não entendem a dinâmica e o ritmo próprios de Moçambique, tendem a fracassar na sua  procura dum futuro melhor.
Voltámos a ser emigrantes e a África que outrora foi portuguesa é um destino de eleição.
Alguns tornaram-se agora verdadeiros retornados.
Muitos não entendem o que se passou nestas últimas décadas em que alimentaram um quimérico sonho de imobilidade. O despertar para a realidade acaba por ser doloroso e violento. Evidentemente que a terra que deixaram já não existe! São os que ficam pairando por aqui , um pouco à deriva e que, em muitos casos, acabam por voltar a Portugal com a derrota na bagagem.
Outros , pelo contrário, abraçam este país que começa a renascer, como um enorme e maravilhoso desafio. Estes serão os vencedores. Assim o permita a Mãe África!

sábado, 12 de outubro de 2013

VOLTAR A ÁFRICA: BICHOS E HOMENS






Há um tempo diferente aqui e sem nos apercebermos vamo-nos deixando ir nesse suave torpor que o vento quente embala.
Dou por mim a tentar saber em que dia da semana estou ou qual a hora para logo de seguida concluir que o tempo é tão relativo e tão efémero que de nada interessa!
Em 2010 visitei a Gorongosa na esperança de ver , elo menos um dos big five! Se pudesse escolhar, pensei eu na altura, então ficaria frente a frente com um elefante!
Não é um animal bonito e muito menos elegante, pelo menos no conceito generalizado de elegância ao qual associamos sempre a imagem de leveza.
Mas talvez porque no meu imaginário o elefante é o último dos dinossauros ( ok, ok, já sei que "ah e tal  que disparate! Os dinossauros eram tudo menos mamíferos". Imaginário , sim?!!! Pronto, adiante!) era o animal que mais queria ver.
Rumámos ao Kruger, pois!
Sorte de principiante, ou alguém lá em cima que gosta de nós, ou apenas porque sim, vimos os BIG FIVE todos num dia! O primeiro... ei-lo ! Enorme, majestoso, sereno, o elefante olhava-nos com o mesmo desinteresse que dedicamos a um insecto inoportuno. Nem chegávamos a ser intrusos: estávamos ali apenas de passagem. Viajantes dum tempo que ali, no meio do reino dos animais, não fazia qualquer sentido.
Imagino que se os animais falassem uns com os outros como sonhava La Fontaine, a nossa passagem seria motivo de grande galhofa e desdém: uns palermas que focam os olhos até à miopia para conseguirem vislumbrar lá longe uma sombra, um movimento que pode ser tudo ou coisa nenhuma e com isso se contentam.
Têm razão sem dúvida, os intrusos somos nós. Mas como fui feliz neste dia em que , mesmo dentro duma carrinha munida de lente e câmara, pude ter um vislumbre de pura liberdade.





terça-feira, 8 de outubro de 2013

VOLTAR A ÁFRICA : PEDAÇO DE PARAÍSO



O que mais  me tem surpreendido neste retorno é a mudança que se operou na face da cidade que ainda ostenta nas avenidas os nomes, o que uma amiga minha com muita graça apelida de " comunistas estrangeiros".
Teve a sua época, fizeram sentido num determinado período. Refletiram até o clima do momento revolucionário de então. Hoje tornam-se incongruentes face a realidades que encarnas uma nova revolução: a do progresso e da modernização.

Se ontem falei do mais básico que incluía um surpreendente supermercado ( quem visitou ou viveu na Maputo de há uns anos sabe bem do que falo!!), hoje o dia premiou-me com um dos mais simpáticos e bem sucedidos spots da cidade.
Perdoem lá o estrangeirismo, mas nenhuma outra palavra me parece abranger este misto de bar, loja e galeria de arte africana, gerida por uma italiana cuja paixão pelas cores e cheiros se reflete em cada canto, em cada pormenor.
Um lugar deveras idílico, ideal para um fim de tarde de fronte para o mar. O tal gin na mão e com os pés à beira do Índico, lembram-se?

É assim que a cidade se vai mudando, tornando-se mais aberta ao mundo, atrevendo-se a lançar-se no cosmopolitismo ainda distante mas que virá. Sem dúvida!!
DHOW MOÇAMBIQUE - A NÃO PERDER!!!    

 


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

VOLTAR A ÁFRICA II





Em 2010 comprar algo tão simples como iogurte, leite, detergente , era coisa para implicar uma ida à África do Sul.
Ok , às vezes era apenas um bom pretexto. Mas que digo eu? ! Um óptimo pretexto, porque de facto Maputo carecia de tudo!
Três anos volvidos, os passeios ainda têm buracos e o lixo rodopia com a força do vento que pressagia forte trovoada. Mas decididamente Maputo mudou!!
Um pouco por todo o lado vão surgindo lojas , a cidade começa a movimentar-se e a reinventar-se.
Dois centros comerciais, um enorme supermercado, convivem lado a lado com os vendedores ambulantes de artesanato, fruta, sapatos, amendoim, maçaroca de milho. O melting pot na mais genuína miscelânea de raças, cores, credos, gente!!!!
 
Fervilhando de juventude ( Moçambique tem uma das mais jovens populações do Mundo) , o futuro embora incerto, longo, arrastado, promete ser risonho.
Mal grado os arautos da desgraça para quem tudo estará sempre mal, mesmo quando as acácias florirem .



domingo, 6 de outubro de 2013

VOLTAR A ÁFRICA I





Não sei se a África me tomou de assalto o imaginário!
A primeira vez não foi suficiente para para que se me colasse à alma como fez com tantos que ainda hoje sonham com planícies imensas, umas verdejantes outras dum castanho que só se encontra ao sul do Equador!
O que sei é que gostei de rever essa cidade que três anos atrás eu previa vir a ser uma das grandes capitais deste imenso continente.
Maputo não correspondeu inteiramente a essa mudança. Está diferente sim, bastante diferente, mas tão longe do fulgor que deve ter tido nos idos de sessenta!!!
Voltei a África e tal como da primeira vez comprometo-me a relatar as minhas impressões de europeia convicta à espera de se apaixonar perdidamente como muitos , por esta terra quente e cheirosa , diferente e misteriosa , que ainda procura o rumo .
Publicarei fotos e pequenas histórias do quotidiano.
Espero que mitiguem a saudade de tantos e espicacem a curiosidade de outros.  Daqueles que de África nada sabem !




quarta-feira, 7 de agosto de 2013

ABRIR A GAIOLA






Esta nossa forma submissa de estar, o nosso conformismo, a fatalidade com que encaramos todas as vicissitudes da vida, as que nos aparecem por obra e graça e as outras as que nos impõem à força de leis por mais déspotas que sejam, sempre me fez espécie!

Que Diabo!! Mas então não fomos nós os intrépidos conquistadores do mar , os valorosos descobridores de novos mundos ?? Ou a História é uma patranha e o poeta um louco ou algures perdemos a raça, o orgulho, a noção de povo, para nos tornarmos nesta massa inerte, “amibal” , gelatinosa e fraca.

Ontem, finalmente creio ter deslumbrado, senão a explicação cabal desta nossa passividade que transforma o fado de canção nacional a estado de alma e forma de vida.

Fui ver a Gaiola Dourada! Precisava dumas boas gargalhadas e achei que nada melhor que um filme onde se mistura Paulo Futre com Joaquim de Almeida.

À nossa maneira todos somos um pouquinho racistas e as inúmeras historietas dos Champinhis , com os seus carros velozes e ufanos, o seu português pontilhado com um francês de forte sotaque luso, prometiam-me uma soirée leve .

Pois bem, enganei-me! Sim, ri com vontade. Sim, os estereótipos estão lá todos. Sim, o Futre pode bem deixar de lado o mundo do futebol e rumar, senão a Hollywood pelo menos a Cannes. Sim!...

Mas o filme é bem mais profundo que uma comédia que poderia até ser afrontosa, sobre os nossos emigrantes. Embora ligeiro não deixa de er a profundidade suficiente para explicar esta nossa tendência para o “ triste fado”. O português tem medo de ser feliz! Pior: acha-se indigno da felicidade.

Moldados na cultura judaico-cristã que nos imprimiu no ADN nacional a noção levada ao extremo da necessidade de “ ganhar o pão com o suor do nosso rosto”, de “ comer o pão que o Diabo amassou” e ainda  de “ gemer e chorar neste vale de lágrimas”, os portugueses aceitam a sua desdita, os desmandos dos seus governantes, o apertar do cinto que lhe impõem com a mesma resignação que outrora os escravos davam as costas ao chicote. Era a lei da vida!

É por isso que medida de austeridade após medida de austeridade nos vamos adaptando, cada vez mais soturnos , acabrunhados, expiando um pecado qualquer, certamente primordial porque se perdeu na memória dos tempos e nos deixou assim : um pálido e frouxo reflexo da grandiosidade que um dia tivemos.