quarta-feira, 16 de outubro de 2013
JOTINHAS E CIA
Hoje faço um interregno nas crónicas africanas ( que audácia tratá-las assim!!!) para esvaziar a alma de toda esta angústia que mesmo longe não me abandona.
Dizia Pessoa que"... falta cumprir-se Portugal."
Eu, que de Pessoa não tenho nem o rasgo nem a clarividência, limito-me a dizer : " Falta cumprir-se". Tudo!
Porque o que hoje é irrevogável passa a fazer-se, porque o que de momento é apenas temporário passa a eterno, o que "...nem pensar" descamba em "...tem que ser" e por aí fora.
Já não me atrevo a dizer que se perdeu a vergonha. Só se perde o que se possui e os nossos governantes nunca a tiveram.
Aliás o que se pode esperar de homens ( e mulheres, está bem de ver ) cuja única escola foram as fileiras das Jotas enquanto iam burilando meia dúzia de cadeiras ( alguns nem isso como é do conhecimento geral ), para conseguirem um canudo e com ele um título que não é mais que honorífico, de doutor, engenheiro, arquiteto.
Da vida, do mundo do trabalho, da sociedade, do povo e do país que governam sabem ZERO!
Tudo o que debitam aprenderam-no nas fileiras, nas máquinas ideológicas dos partidos.
Fazem lembrar a Mocidade Portuguesa ou a Juventude Hitleriana, com as consequências que se conhecem quando, finalmente maduros, tomam o poder.
Quem é esta gente que nos governa? Que elite política é esta?
Estou em crer que muitos nem o programa do seu próprio partido alguma vez lhes passou pelos olhos.
Em tempos remotos, quando ainda havia políticos dignos do nome e da função, estes eram escolhidos depois de terem dado provas, nas diversas áreas, da sua competência. O que os movia essencialmente, era a causa pública. Existia um espírito de abnegação e sentido de dever.
Evidentemente que não eram a Santa Casa da Misericórdia! Evidentemente que eram remunerados! Mas jamais iriam aplicar medidas de dura contenção aos outros, defendendo para si as subvenções ou os privilégios .
Estes Jotinhas como sabem que quando caírem do poleiro ficam sem chão que se veja ( ok haverá sempre assim uma fundação ou uma empresa para levar ao charco e comprarem um paraíso qualquer numa ilha remota!... ) , agarram-se ao seu mesquinho estatuto e às regalias, pouco se importando com o povo que deviam representar.
Pergunto-me para quando uma bela duma revolução. Eu cá estou preparada!!!
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
VOLTAR A ÁFRICA- HUMILHADA MAS NÃO OFENDIDA
Nunca gostei de fazer má figura! Quando sinto que não sou a melhor desisto. Foi assim com o Karaté, é assim com a natação, com o ponto de cruz ...
Daí que depois desta ida ao Krugger estou em crer que nunca mais toco numa máquina fotográfica.
O post de hoje tem a exclusiva assinatura do meu amigo ( recente mas mesmo assim) Dário Prates , oficial destacado para a cooperação em Maputo, que não só foi um excelente guia como nos brindou com uma reportagem de nível profissional.
Nem me atrevo a colocar legendas pois uma imagem vale mais que mil palavras, não é assim?
domingo, 13 de outubro de 2013
VOLTAR A ÁFRICA : DIÁSPORA
Regressar a África para muitos é o abrir duma chaga nunca
fechada e que sangra ao mais pequeno toque.
A memória é coisa que perdura muito para além do mero querer
consciente. Assalta-nos quando menos esperamos e em muitos casos , inflige-nos
a dor que pensávamos estar esquecida.
A toda poderosa crise Europeia ( que se estende a todo o
Ocidente desenvolvido, diga-se em abono da verdade!) tem vindo a obrigar ao
êxodo rumo a outros continentes.
África foi em várias fases da nossa História, o destino
escolhido.
Primeiro como punição, degredo, alternativa a uma vida sem
liberdade. Eram os primeiros anos do século passado!
Depois o El Dourado da década de cinquenta , o início da
grande vaga do colonialismo que descambou em conflito aí por volta de 61.
Seguiu-se a guerra que , com todos os seus horrores, deixou
em muitos o amor pelos grandes horizontes, pelos pôr-de-sol vermelho, pelas
melodias, pelo encantoda terra vermelha de África!
Mas esta é uma mãe caprichosa que não raras vezes fustiga os
filhos que a amam!
A década de sessenta viu chegar os retornados a Portugal.
Palavra oca de sentido para a grande
maioria que nunca tinha, sequer, colocado os pés na Metrópole e por isso não
retornavam a lado nenhum! Pelo contrário eram escorraçados, refugiados, banidos
do único país, do único continente que conheciam.
Hoje os portugueses voltaram a escolher Moçambique como
destino para a diáspora que o seu país lhes impôs .
Estão um pouco por todo o lado: com pequenos e grandes
negócios, tentando estabelecer parcerias e acordos.
Mas a visão do seu papel neste país é bem diferente da que
havia nos idos de sessenta e os que não entendem a dinâmica e o ritmo próprios
de Moçambique, tendem a fracassar na sua
procura dum futuro melhor.
Voltámos a ser emigrantes e a África que outrora foi
portuguesa é um destino de eleição.
Alguns tornaram-se agora verdadeiros retornados.
Muitos não entendem o que se passou nestas últimas décadas
em que alimentaram um quimérico sonho de imobilidade. O despertar para a
realidade acaba por ser doloroso e violento. Evidentemente que a terra que
deixaram já não existe! São os que ficam pairando por aqui , um pouco à deriva
e que, em muitos casos, acabam por voltar a Portugal com a derrota na bagagem.
Outros , pelo contrário, abraçam este país que começa a
renascer, como um enorme e maravilhoso desafio. Estes serão os vencedores.
Assim o permita a Mãe África!
sábado, 12 de outubro de 2013
VOLTAR A ÁFRICA: BICHOS E HOMENS
Há um tempo diferente aqui e sem nos apercebermos vamo-nos deixando ir nesse suave torpor que o vento quente embala.
Dou por mim a tentar saber em que dia da semana estou ou qual a hora para logo de seguida concluir que o tempo é tão relativo e tão efémero que de nada interessa!
Em 2010 visitei a Gorongosa na esperança de ver , elo menos um dos big five! Se pudesse escolhar, pensei eu na altura, então ficaria frente a frente com um elefante!
Não é um animal bonito e muito menos elegante, pelo menos no conceito generalizado de elegância ao qual associamos sempre a imagem de leveza.
Mas talvez porque no meu imaginário o elefante é o último dos dinossauros ( ok, ok, já sei que "ah e tal que disparate! Os dinossauros eram tudo menos mamíferos". Imaginário , sim?!!! Pronto, adiante!) era o animal que mais queria ver.
Rumámos ao Kruger, pois!
Sorte de principiante, ou alguém lá em cima que gosta de nós, ou apenas porque sim, vimos os BIG FIVE todos num dia! O primeiro... ei-lo ! Enorme, majestoso, sereno, o elefante olhava-nos com o mesmo desinteresse que dedicamos a um insecto inoportuno. Nem chegávamos a ser intrusos: estávamos ali apenas de passagem. Viajantes dum tempo que ali, no meio do reino dos animais, não fazia qualquer sentido.
Imagino que se os animais falassem uns com os outros como sonhava La Fontaine, a nossa passagem seria motivo de grande galhofa e desdém: uns palermas que focam os olhos até à miopia para conseguirem vislumbrar lá longe uma sombra, um movimento que pode ser tudo ou coisa nenhuma e com isso se contentam.
Têm razão sem dúvida, os intrusos somos nós. Mas como fui feliz neste dia em que , mesmo dentro duma carrinha munida de lente e câmara, pude ter um vislumbre de pura liberdade.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
VOLTAR A ÁFRICA : PEDAÇO DE PARAÍSO
O que mais me tem surpreendido neste retorno é a mudança que se operou na face da cidade que ainda ostenta nas avenidas os nomes, o que uma amiga minha com muita graça apelida de " comunistas estrangeiros".
Teve a sua época, fizeram sentido num determinado período. Refletiram até o clima do momento revolucionário de então. Hoje tornam-se incongruentes face a realidades que encarnas uma nova revolução: a do progresso e da modernização.
Se ontem falei do mais básico que incluía um surpreendente supermercado ( quem visitou ou viveu na Maputo de há uns anos sabe bem do que falo!!), hoje o dia premiou-me com um dos mais simpáticos e bem sucedidos spots da cidade.
Perdoem lá o estrangeirismo, mas nenhuma outra palavra me parece abranger este misto de bar, loja e galeria de arte africana, gerida por uma italiana cuja paixão pelas cores e cheiros se reflete em cada canto, em cada pormenor.
Um lugar deveras idílico, ideal para um fim de tarde de fronte para o mar. O tal gin na mão e com os pés à beira do Índico, lembram-se?
É assim que a cidade se vai mudando, tornando-se mais aberta ao mundo, atrevendo-se a lançar-se no cosmopolitismo ainda distante mas que virá. Sem dúvida!!
| DHOW MOÇAMBIQUE - A NÃO PERDER!!! |
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
VOLTAR A ÁFRICA II
Em 2010 comprar algo tão simples como iogurte, leite, detergente , era coisa para implicar uma ida à África do Sul.
Ok , às vezes era apenas um bom pretexto. Mas que digo eu? ! Um óptimo pretexto, porque de facto Maputo carecia de tudo!
Três anos volvidos, os passeios ainda têm buracos e o lixo rodopia com a força do vento que pressagia forte trovoada. Mas decididamente Maputo mudou!!
Um pouco por todo o lado vão surgindo lojas , a cidade começa a movimentar-se e a reinventar-se.
Dois centros comerciais, um enorme supermercado, convivem lado a lado com os vendedores ambulantes de artesanato, fruta, sapatos, amendoim, maçaroca de milho. O melting pot na mais genuína miscelânea de raças, cores, credos, gente!!!!
Fervilhando de juventude ( Moçambique tem uma das mais jovens populações do Mundo) , o futuro embora incerto, longo, arrastado, promete ser risonho.
Mal grado os arautos da desgraça para quem tudo estará sempre mal, mesmo quando as acácias florirem .
domingo, 6 de outubro de 2013
VOLTAR A ÁFRICA I
Não sei se a África me tomou de assalto o imaginário!
A primeira vez não foi suficiente para para que se me colasse à alma como fez com tantos que ainda hoje sonham com planícies imensas, umas verdejantes outras dum castanho que só se encontra ao sul do Equador!
O que sei é que gostei de rever essa cidade que três anos atrás eu previa vir a ser uma das grandes capitais deste imenso continente.
Maputo não correspondeu inteiramente a essa mudança. Está diferente sim, bastante diferente, mas tão longe do fulgor que deve ter tido nos idos de sessenta!!!
Voltei a África e tal como da primeira vez comprometo-me a relatar as minhas impressões de europeia convicta à espera de se apaixonar perdidamente como muitos , por esta terra quente e cheirosa , diferente e misteriosa , que ainda procura o rumo .
Publicarei fotos e pequenas histórias do quotidiano.
Espero que mitiguem a saudade de tantos e espicacem a curiosidade de outros. Daqueles que de África nada sabem !
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