quinta-feira, 5 de julho de 2012

ESPLENDOR SOBRE O RELVAS

Lula da Silva, quando foi empossado como presidente do Brasil, disse ser a primeira vez que obtinha um título. Nunca escondeu as suas, praticamente inexistentes , habilitações. Foi um grande presidente!


O exercício da política e da governação não exige um diploma, ao contrário doutras profissões. Exactamente porque não é uma profissão ou melhor, não deveria ser.

A política tornou-se profissão quando surgiram as “Jotas” que embora tenham sido criadas para formarem espírito crítico e político, transformaram-se em centrais de emprego, para quem não sabia fazer mais nada. Que me perdoem as honrosas mas raras excepções. Mas estas sabem perfeitamente que tenho razão!

E como este é um país de doutores , engenheiros , arquitectos, o canudito faz sempre jeito. Sim, que não fica bem chamar o Sr. Ministro de Álvaro e muito menos de Relvas. Cai-nos mal ao ouvido!

Os espanhóis resolveram a questão com o “dom” e os brasileiros tratam todos de “ dotôr” e a questão do título fica resolvida.

Por cá temos pruridos em chamar, ou intitularmo-nos Sr. ou Sr.ª sem mais. É assim uma despromoção social!

O caso Relvas, que tem feito correr tinta, não é o primeiro nem será seguramente o último. Pouco se me dá que o senhor seja doutor, engenheiro, arquitecto, ferroviário ou taxista. Já o facto de ser mentiroso e arvorar-se de virgem pudica, o de usar do seu poder para ameaçar e chantagear profissionais que, de certo fizeram transparentemente e com custo o seu percurso, ah isso sim não admito e creio que a todos nos deve indignar

Este era o homem que gritava que o rei ia nu aquando do caso Sócrates. Tinha razão , mas esqueceu-se que também ele levava as pudendas à mostra!

Este foi o homem que vociferava contra a promiscuidade entre o governo PS e a Comunicação Social, que se exaltou com o caso Manuela Moura Guedes , mas que quando acossado não se coibiu de telefonar para uma jornalista das suas relações, ameaçando-a publicar dados da sua vida pessoal.

Este é o governante que temos! E o problema é que não é filho único de mãe solteira!

Dizia-me ontem um amigo, que o facto de o sr ( doutor , engenheiro, arquitecto, risque-se o que não interessar) Miguel Relvas ter declarado ser algo que efectivamente não era quando tomou posse ainda como deputado, não é crime, uma vez que se trata apenas duma declaração que não carece de comprovativo. Pois sim! Mas há a LEI e a MORAL e quer por uma quer por outra a atitude deve ser punida, uma vez que foram prestadas falsas declarações.

Qualquer um de nós, mero cidadão anónimo, tem que provar o que afirma. Outrotanto não se exige em quem nos governa?

Não me importo de ser governada por um estivador. Desde que honesto, trabalhador e com uma estratégia para o país. Não aceito ser governada por mentirosos que nunca fizeram nada de útil a não ser utilizarem os partidos como trampolim para altos cargos nos quais só fizeram trampa. Por isso é que este País está neste atoleiro! Porque quem nos governa são os medrosos merdosos da nossa praça , que investem de cabeça contra quem lhes possa fazer frente.



segunda-feira, 2 de julho de 2012

PROFESSOR ALBÉRICO








Todos nós tivemos professores que nos marcaram, uns pela positiva outros nem por isso. De vez em quando vêm-nos à memória e os sentimentos que experimentámos ás suas mãos - medo, ternura, felicidade - fazem-nos sorrir.

Hoje o meu sentimento é de vazio pela morte dum homem que, embora não me fosse muito querido ( era professor de Matemática!!) era uma referência no liceu onde andei e na cidade onde vivi.

Chamava-se Albérico e nunca ninguém o tratou por doutor ou Sotôr. Ele era o professor Albérico e com o título ia o respeito de todos os que, directa ou indirectamente, com ele contactavam.

De uma inteligência francamente fora do comum, formou centenas de alunos e conseguiu o milagre de fazer com que alguns deixassem de odiar os números e fossem hoje grandes homens em áreas de engenharia. Não foi o meu caso. Aliás lembro-me do ar dele, bata imaculadamente branca ( sim ele sempre usou bata branca) aberta escorregando dos ombros , dizer-me com ar pesaroso:

- Ai filha tão inteligente para umas coisas e tão burrinha para outras!! Sendo que as outras, está bem de ver, eram as equações e quejandos que não me entravam nem á lei da bala. Não via beleza nenhuma naquilo!!

- A Matemática é a ciência mais bela que existe porque não depende da vontade nem da força dos homens.

Pois sim abelha!

Não obstante sempre gostei dele. A sua figura muito direita, seca de carnes, com a sua boina basca, o seu passo firme e o seu ar austero,o professor Albérico era uma referência em Oliveira de Azeméis.

Por trás daquele ar que intimidava estava porém um homem com um coração doce e terno. Sim sim, bem sei que muitos que me possam ler e que o tenham conhecido dirão que é bondade de obituário. Lamento mas não é. Foi preciso que ele se jubilasse e outros laços se estabelecessem para que eu o conhecer. Marido , pai e avô completamente dedicado, o Professor Albérico era a antítese do homem que em plena sala de aula ameaçava ( sem nunca, mas nunca cumprir nem sequer no tempo da "outra senhora!"):

- Começo a apanhar milho por aqui fora e vai tudo a eito!! - e exemplificava com os dois braços batendo dum lado e doutro.

Exasperava-o a inaptidão para os números. Não a entendia!

- Vocês parecem aquele tipo que começou a arrancar as árvores uma a uma à espera de encontrar a raiz quadrada, caramba!!!

O Professor Albérico morreu. Um acidente estúpido tirou-lhe a vida juntamente com a mulher quando regressavam a casa.

Dele fica, para os que o conheciam., a imagem dum homem íntegro, bata branca escorregando dos ombros magros, boina basca na cabeça onde os números pintavam as mais belas imagens.

Meu querido professor, ainda hoje não sei fazer equações e Pi é apenas um som, mas se falhou na sua missão de fazer de mim amante de números, conseguiu fazer-me amar os homens.

Grata e até sempre!

quarta-feira, 27 de junho de 2012

SINAIS

As minhas viagens de ida e volta para o trabalho têm como “ pendura” a TSF.

Como diz o spot “ É a vida. Todos temos as nossas preferências!” e a minha é ouvir os blocos de notícias logo pela manhã.

Acontece que à hora em que ainda estou no meio do trânsito, acabo sempre por ouvir aquilo que é o outro lado da vida, contada pelo Fernando Alves.

Nem sempre é o bright side, mas é um olhar completamente que, mesmo neste lufa lufa que é o nosso quotidiano, nos faz pensar, por vezes sorrir e não raras vezes agradecer pela vida.

Num panorama jornalístico deprimente, cheio de escandaleiras, desgraças, tristezas e faits divers que mais parecem conversas de soalheiro, o” Sinais” é uma lufada de ar fresco, é uma pintura falada, feita de realidades tão variadas como as múltiplas vidas de que é feito este Mundo.

É disso que o Fernando Alves fala: das vidas, das pessoas, dos locais e dos cheiros, das memórias, numa linguagem que sem ser floreada é bela como um poema, transformando o discurso radiofónico, seco, conciso e árido por natureza, numa peça do mais brilhante jornalismo.

Há de tudo neste Sinais. Há a NOTÍCIA, com maiúsculas, o assunto que interessa, que tem conteúdo, que desperta, que lança a polémica ou que faz reflectir. Mas há também o carácter humano, o cunho do autêntico, por vezes do aparentemente simples, que cria no ouvinte uma empatia, como se aquela pudesse ser a sua própria história.

Todos os dias me sinto um pouco mais enriquecida depois de ouvir o Fernando Alves. Esse é para mim o verdadeiro serviço público da rádio.

“Sinais” é uma rubrica que deveria ser editada em livro, para folhear uma e outra vez.

Para quando Fernando Alves?

segunda-feira, 18 de junho de 2012

VESTIR A CAMISOLA









Um interregno enorme, porque a catadupa de acontecimentos , noticias e escândalos são de forma a deixar qualquer um tonto e perdido.


Para onde quer que se olhe o papão da crise assalta-nos literalmente deixando-nos exangues e sem vontade.

O que nos vale é o futebol para elevar a moral .

Embora sejamos um povo com costumes brandos, o que quer dizer que vamos cozinhando a nossa revolta em lume brando, já se aspira no ar ventos de mudança.

É um ar que assola a Europa como um todo e que começou com a queda do eixo Merkelzy, propagou-se à Espanha e reacendeu-se na Grécia.

A subida ao poder francês de François Hollande é pronuncio de uma viragem no paradigma europeu, fazendo-o transitar da ditadura dos mercados que quase inviabilizam a continuidade da EU, de novo para os cidadãos.

A recusa da Espanha em aceitar um resgate retomando a ideia da emissão de eurobonds e o braço de ferro da Grécia aliados a uma França que já não alinha cegamente no eixo germânico, dá –nos a luz ao fundo do túnel onde a Europa tinha mergulhado.

A vaga de fundo chega de mansinho a Portugal. As últimas sondagens mostram claramente o descontentamento dos portugueses, que dão uma clara vantagem ao maior partido da oposição, nas suas intenções de voto.

Tardiamente ( mas como diz o povo sábio” mais vale tarde do que nunca”) os portugueses aperceberam-se que o Novo Ciclo de António José Seguro era, exactamente isso: uma nova forma de fazer política, um corte com o passado sem o enjeitar, negar ou esconder, mas com uma firme vontade de seguir em frente por outro caminho.

Este último fim de semana foi palco de duas grandes vitórias: a do orgulho português em campo e a da renovação do PS Porto.

Uma nada tem a ver com a outra, naturalmente. Mas ambas são de saudar, já que representam cada uma na sua área, o renascer da esperança.

Em termos políticos e aos poucos mas firmemente, vão sendo deixados para trás os barões e baronetes, introduzindo no plano partidário do Partido Socialista uma forma diferente de fazer e estar na política. Uma forma clara, objectiva, com forte sentido do interesse nacional, com uma ideia clara e não submissa da política europeia.

José Luís Carneiro ganhou a Federão do PS no Porto. Dele se espera a consolidação e a afirmação do Norte, das suas especificidades, das suas vantagens e da sua força junto do poder central. Nele estão postos os olhares dos militantes socialistas, não apenas da região Norte mas todos os que acreditam que Portugal é um país viável e não este abismo, este vale de lágrimas e de sacrifícios, apregoado pelo governo.

Um governo que não veste a camisola do País nunca se poderá impor na Europa.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

JORNALISTA PRESSIONANDO RELVAS: REVOLTA EM MARCHA






Embora nos tenham tirado a tolerância da Terça Feira de Carnaval, tentando tornar –nos mais taciturnos, tristes e infelizes o que é certo é que continuamos a ser um país que consegue rir de si próprio. Mas é sempre um riso amarelo, meio deprimido, na linha invertida de “ quem não pode rir chora!”


Rimos das nossas misérias, dos escândalos dos nossos políticos, da morosidade e das sentenças da nossa justiça…Rimos das pantominices que nos impigem como entretenimento, rimos da nossa falta de sorte, da nossa pequenez… Rimos realmente porque já não sabemos chorar.

É talvez porque levamos a vida neste riso desconsolado, que nos adaptamos aos costumes brandos que nos limitam a revolta. Se saímos à rua em manifestação fazemo-lo de forma tímida e contida, sem confrontos nem muita expressão. E se calha estar sol, bom tempo, bem que trocamos a contestação por uma boa tostadela na praia!

Não há escândalo que não dê uma boa anedota!

O caso Relvas é paradigmático disto mesmo, agravado com uma amnésia apropriadamente selectiva, que o leva a não recordar datas de almoços ou reuniões mas que não o deixa esquecer pormenores da vida pessoal deste ou daquele.

Aqui entre nós tenho bem mais medo deste senhor que tem um computador na cabeça do que qual outro que possua documentos , mesmo que sigilosos, numa pen, disco rígido , ipad, portátil, telemóvel e tuttiquanti.

Um ministro que tutela a pasta que abrange a Comunicação Social e que se permite exercer a mais descarada censura ao ameaçar a vida particular duma jornalista caso esta exerça o seu ofício, não tem condições nenhumas para continuar no governo!!

Disse-o e escrevi-o : qualquer figura pública tem que seguir a máxima da mulher de César, à qual não basta ser séria, é preciso parecê-lo.

Depois de tantos esqueletos saindo dos armários de S. Bento, já ninguém confia na inocência, manchada por uma atitude suspeita .

Podemos gostar de rir , sim , mas desengane-se quem nos toma por palhaços! Mesmo que tristes!!

quinta-feira, 17 de maio de 2012

300 VERSÃO 2012

Vá lá saber-se porquê neste fim de semana vi, uma vez mais ( em verdade pela primeira na totalidade já que da outra vez apanhei o filme a meio) o “300”.


Premonitório, não?



A saída da Grécia do espaço Euro, era previsível e tornou-se inevitável após as últimas eleições que deixaram o país sem governo .

Ora a Grécia não é a Bélgica que durante mais dum ano esteve com um governo de gestão sem que tal fizesse a mínima mossa , nem interna nem externamente.

Mas ninguém pode negar que os gregos são duros de roer e que entre dobrar e quebrar… estoiram!!

Não é por nada mas tenho –lhes uma certa admiração! Não andam cá com paninhos quentes… ou é ou não é !

O povo grego que deu à humanidade a noção de democracia, dá agora à Europa uma lição de soberania.

Para muitos trata-se dum suicídio . Para outros, possivelmente mais ingénuos e utópicos, a saída inevitável da Grécia do jugo do mercado único , é um grito de rebeldia.

Uma rebeldia temida pelo efeito dominó que pode suscitar dentro duma Europa que se vergou aos mercados e à economia especulativa, esquecendo a solidariedade para que estava destinada..

Por cá a expectativa mantém-se, com os nossos governantes na sua senda de bons alunos a tentarem demonstrar quão diferentes são dos gregos. Infelizmente, diria. Porque mesmo que a história do “ 300” se repita duma coisa estou certa: A Grécia cairá, orgulhosamente, de pé.

E mais vale morrer de pé que viver toda a vida de cócoras!

terça-feira, 8 de maio de 2012

A EUROPA JÁ ESTÁ A ARDER ???


O meu coração sempre bateu à esquerda, tal como o de Jacques Séguéla no célebre slogan da campanha de Mitterrand   As razões são várias, mas, como quase todos os pensamentos mesmo os maiores, podem-se sintetizar neste pensamento singelo: a igualdade de direitos e deveres que a todos assiste tem que ser mantida na maior liberdade e respeito pelo individuo e pelo colectivo.

Devia pois sentir-me no mínimo radiante com o volte face acontecido no passado fim de semana nas eleições francesas, tendência que, ao que tudo indica, se irá alargar ao espaço  eleitoral europeu.

Acontece que não consigo deixar de pensar que talvez tenha sido tarde demais, que uma Europa a 27 não encontra facilmente um caminho unitário e coeso, que o monstro foi criado e agora dificilmente se poderá controlar.

A busca dum rumo para esta Europa que cresceu rápido demais e com uma visão excessivamente economicista e liberal, não é de agora. A inexistência de líderes com horizontes políticos alargados, com estratégias definidas e autónomas dos mercados, em suma, a falta de estadistas na mais ampla acessão da palavra, conduziu a Europa a um deserto de ideais onde começa a ser penoso viver. E quando a vida se torna insustentável, tudo é possível e isso é assustador!

Os cidadãos europeus disseram NÃO a uma política que endeusou os mercados e a eles se vergou sem ter em conta as pessoas. Puniram, inequivocamente, os arautos da austeridade que em prol de interesses tão difusos e externos ao indivíduo, reduziram a política  a uma mera gestão da coisa pública , que não teve em conta o cerne de qualquer governo : as pessoas.

Os lideres desta Europa cometeram um erro de casting ao assumirem que a maioria dos europeus se submeteria ao paternalismo déspota  que lhe quiseram impor. Enganaram-se e esse é um engano que nos pode sair a todos muito caro!!

O meu coração sempre bateu à esquerda. Por várias razões que se podem sintetizar neste pensamento singelo: a igualdade de direitos e deveres que a todos assiste tem que ser mantida na maior liberdade e respeito pelo individuo e pelo colectivo. Devia pois sentir-me no mínimo radiante com o volte face acontecido no passado fim de semana. Acontece que não consigo deixar de pensar que talvez tenha sido tarde demais, que uma Europa a 27 não encontra facilmente um caminho unitário e coeso, que o monstro foi criado e agora dificilmente se poderá controlar.

François Hollande tem um fardo enorme sobre os ombros! Herda um casamento político do qual, dificilmente sairá impune. É da História que das alianças Franco- Germânicas nunca surgiu nada de bom. Que acontecerá agora que um dos interlocutores foi substituído? Terá a França a força suficiente para controlar a hegemonia germânica que já se começava a desenhar?

Da Grécia não falemos, pois que pouco ou nada há a dizer. A revolta das ruas transposta para as  urnas chega, claramente, tarde demais ao poder. Agora aos helénicos resta apenas o caminho da ruptura e esta pode ser o rastilho que incendeie toda a União que nunca esteve tão desunida nem tão fragmentada.

E todos estudámos o que uma tal fragmentação traz consigo!

Por isso é que hoje, já no rescaldo dos resultados, passada a euforia de uns e secas as lágrimas de outros, é tempo de nos perguntarmos – todo!- s se queremos ver arder esta Europa que tanto custou a construir.