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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

GAVIÃO DE PENACHO ( "GRITO DE GUERRA" DA ACADEMIA!)






 


 

O estar longe tem destas coisas: bate-nos a saudade , deitamos uma lágrima ao ouvir um fado piroso mesmo mal cantado , acabamos por gostar de bacalhau!

As duas primeiras experimentei-as por diversas vezes ( sim mesmo a lagrimita ao canto do olho, Deus me perdoe!) agora acabar por salivar diante do fiel amigo nunca me tinha acontecido.

E isto por uma razão que se multiplica por mil e uma, tantas quantas as formas de confecioná-lo: não gosto de bacalhau!!

 

Mas a companhia era boa e aquele convite assim à última hora para um jantar da Academia do Bacalhau veio mesmo a calhar. Se bem que ignorasse completamente o que era isto de Academia do Bacalhau!!!

Pois bem, fui, gostei ( repeti o bacalhau, alguém acredita????!!) e aprendi.

A ideia de criar uma associação de portugueses na diáspora que reunisse e congregasse regularmente a comunidade portuguesa, surgiu na África do Sul em 1968.

Se foi a saudade, o fado ou o bacalhau que os juntou, desconheço. Mas ali se criou de imediato um eixo de lusofonia que extravasou as fronteiras da África do Sul para se espalhar pelos cinco continentes contando neste momento 51 Academias.

Mas o que é que se faz na Academia do Bacalhau para além de, naturalmente , se comer o dito?

Em primeiro lugar estabelecem-se laços, criam-se as condições de adaptação para os que vão chegando, reinventa-se um pedaço do Portugal longínquo. As iniciativas sucedem-se e , nem de longe nem de perto, se resumem às jantaradas mensais ( aliás sempre muitíssimo concorridas ao que sei!!).

Aqui se fala português ( o que para as segundas e terceiras gerações é , não raro , das poucas possibilidades de contacto com  a língua fora do seio familiar), aqui se ouve poesia , aqui se debatem questões de carácter interno da comunidade e de Portugal, aqui se aplica a fórmula “ um por todos , todos por um “.

Nos recentes dias de angústia perante os sucessivos raptos e em que a comunidade se sentiu ameaçada, a  Academia foi refúgio e alento para muita gente . Debateu-se o retorno ou  a permanência, a segurança nas escolas e nos locais de trabalho, trocaram-se contactos, disponibilizaram-se meios.

Não é à toa que se tratam por “compadre” e “comadre” à boa maneira rural lusitana! A Academia do Bacalhau é uma aldeia de Portugal transplantada e replicada por 51 países.

Mas não se pense que esta associação se fecha em si mesmo, que se enclausura num ghetto . Não.  Todas as Academias têm um papel social e benemérito , apoiando instituições de solidariedade dos países onde se encontram.

Estas instituições não têm que ter, necessariamente raízes portuguesas . As Academias não estão  de costas voltadas para as sociedades que as acolheram!

Assim a Academia do Bacalhau de Maputo apoia a Casa do Gaiato da cidade ( cuja verba o governo português cortou!) e uma associação de jovens mães na Matola. Os contributos de empresários portugueses e dos próprios eventos, vão direitinhos para estas obras.

No último jantar que decorreu no hotel Girassol – o único a ter um buffet de bacalhau semanal!- , foi eleito o presidente da Academia para o próximo ano. António David , após a sua reeleição , tratou de imediato de organizar e agendar a festa de Natal da comunidade portuguesa, lembrando que a permanência dos portugueses em Moçambique só é possível com uma estreita ligação aos moçambicanos e como tal alertou para a necessidade de alargar a festa também às famílias dos colaboradores de cada um dos presentes.

Aliás eram vários os Moçambicanos presentes e … compadres de pleno direito da Academia. É que o coração tem uma só cor, bate a um só compasso e… qualquer um pode gostar de bacalhau!

E de sentir saudade ao ouvir um fado.

 

Um gavião de Penacho, pois!!!!

 

 

 

 

 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

DIREITO E DEVERES DUMA GREVE




Não posso dizer que sempre fiz greve!!  Sou  consequente com o que penso e com o que faço, como tal umas vezes achei que devia aderir outras não.

No entanto considero que, de todas as conquistas de Abril  a mais importante foi o direito à contestação e à liberdade de expressão. Como tal respeito todos os que em qualquer altura lançaram mão da sua cidadania e da liberdade reconquistada, para protestarem. Nem sempre os seus protestos foram os meus, mas respeito-os todos !

Porém há situações em que outros valores mais altos que a contestação, se erguem e devem  ser tidos em conta.

Falo do valor das palavras tão fortes e esquecidas como: dever, solidariedade, humanitarismo, cidadania, Pátria.

E para os que nesta altura pensam que , por uma lobotomia à distância passei a ser MRP , esclareço desde já: A greve geral em Portugal é mais que um justo direito. É um dever nacional para resgatar o país das mãos de incompetentes vendilhões dum país com 900 anos de História da qual, a maioria dos que nos governam, não sabe sequer uma centésima parte. Pese embora a  eterna bandeirinha nacional nas respectivas lapelas. O que até faz sentido porque quando agem ou abrem a boca duvidamos da sua condição nacional.

Posto este ponto em claro , esclareço o resto.

Encontro-me num país onde a tensão cresce a cada minuto. E se para mim, que vim e logo regressarei, sem bagagem nem nada que me prenda, o quotidiano é incerto, imaginem para as centenas ( atrevo-me a dizer milhares) de portugueses que aqui estão radicados!!

Gente que vive no terror de que os filhos lhes sejam tirados. Gente que vive a olhar por cima do ombro de cada vez que sai de casa, se dirige ao trabalho. Gente que fez crescer esta economia  e que de repente teme  que , uma vez mais, a História se repita. Gente que foi, muitos deles, rechaçada de Portugal por quem os deveria governar e proteger .

Agora façam um novo exercício de imaginação e coloquem-se na pele destes novos emigrantes que recebem a mensagem do seu Consulado dizendo que hoje, 8 de Novembro, estaria fechado devido à greve geral em Portugal!!!!

É duma falta de sentido do dever para com os seus concidadãos que nem tenho palavras para descrever.

“ –Ah pois e numa situação extrema o que é que pode fazer o Consulado?” – ouvi eu.

É pá se numa situação extrema não pode fazer nada, se numa situação de tensão fecha as portas e adere a uma greve a 9000km de distância, deixando desamparados ( pelo menos moralmente o que em situações de crise é fundamental !) os que são a razão da sua existência,  então não serve de coisíssima nenhuma e pode perfeitamente ser fechado!! Ora aí está um belo corte nas despesas!!

A comunidade portuguesa em Maputo hoje está revoltada e com razão. Não contra a greve que é justa e visa um objectivo claro: resgatar o país das mãos de quem o tenta vender ao quilo.
Mas contra os que , mais uma vez não nos representam, não nos governam, não nos dão Pátria.

Mesmo à distância de 9000Km!!!

 

 

domingo, 3 de novembro de 2013

MENINOS DE ÁFRICA: JÚNIOR










_ Olha o maior crava da cidade!! Mas é giro este puto!!

Um comentário destes arrasa qualquer ego maluco que tem a mania de que (ainda ) é repórter!!!
Pronto!! Lá fui eu enganada mais uma vez!!! Sou muito ingénua!!!
Mas…
Ok, o puto passa avida a pedinchar . Curiosamente a mim nunca me pediu dinheiro mas sim comida, mas também sempre o apanhei a horas da refeição e perto de restaurantes. Mas pronto, dou de barato que tem , agora que me falam disso, um estilo muito próprio.
Mas…. E o que sempre me matou ao longo da vida foi isto: mas….
Não é o facto de andar a pedir que me leva a inclui-lo no rol dos meninos de África. É o facto de, com necessidade ou não, o fazer assim duma forma quase profissional.
Manha? Será! Acredito mesmo que seja. Mas a manha aprende-se e por regra é fruto da necessidade, aquela coisa que nos aguça o engenho por forma a sobrevivermos.
O garoto tem ( diz ele!) 12 anos mas aparenta mais.
Circula numa bicicleta que em tempos deve ter sido nova.
“ Ora pois, lá está!”
- Ouve cá Júnior, tas aqui a pedir e andas de bicicleta ? ( sim sou ingénua mas não sou parva!)
O garoto tem um ar de triunfo nos olhos:
- Foi um amigo que me deu. Ele é português como tu, sabes?
- Um amigo?
- É!! Ele é muito rico! O pai deu-lhe uma playstation  e patins, e bicicleta. Agora voltou para Portugal e deu-ma.
Há um certo orgulho na voz.
- Quando voltar vai-me dar outras coisas.
Faço-lhe as perguntas clássicas: pergunto-lhe pelos pais, pela escola, onde mora…
Diz-me que a mãe um dia foi-se embora e deixou-o sozinho em casa. O pai já tinha ido.
- Para onde?
Encolhe os ombros: não sabe. Era pequeno na altura. Aí uns cinco anos talvez. Nessa altura ainda não andava na escola.
_ Ficaste com os teus avós?
- Não com um vizinho. Agora vivo com uma tia e dois irmãos.
Ok alguém da família. Faz sentido.
_ Ela não é bem minha tia e eles também não são meus irmãos. São filhos dela percebes?  Toma conta de mim e pronto. Mas é muito chata.
- Chata?
- É. Não quer que eu saia e isso. E eu fujo.
Já tinha percebido que a rua era o seu mundo. Mas então e a escola?
- Ando na escola. Mas não gosto.- responde-me.
Evito ( a custo!) o velho cliché associado à educação e blá, blá.
Se calhar por isso apressa-se a dizer:
- Mas eu sei que tenho que estudar. Só que não gosto de estar ali fechado, sabes?
Ora se sei!! Quanto é melhor andar de bicicleta pelas ruas de Maputo.
É na rua que aprenderá a ser homem. Possivelmente na forma de Xico Esperto ou bem pior.
Mas para já limita-se a ser um puto giro que corre pelas ruas de Maputo montado num sonho que alguém lhe deu.