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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O MEU PAÍS ESFOMEADO

Hoje ao rever parte do livro ( eterno!!!) que estou a escrever e que se passa numa aldeia raiana em tempos de guerra, deparei-me com este pedaço de texto que escrevi e que, temo bem, venha a verificar-se proximamente. Longe venha o tempo!!


A fome não tem língua.


Expressa-se num idioma único que transborda dos olhos muito abertos, espantados, para depois cair num olhar baço, morto resignado e apático de quem já nada espera, nada pede.


A guerra quando não mata, espalha em seu redor um deserto faminto e transforma os povos em hordas de predadores, cujo único objectivo é sobreviver um dia mais, uma semana, até à próxima colheita que, se Deus quiser e os homens deixarem, será feita em paz.


Mas enquanto a terra estiver assim , esteril e moribunda, sem que haja homens para a acariciarem, a amarem e emprenharem com as suas sementes de trigo dourado, é preciso procurar outras sementeiras, outros campos, outro pão.


A aldeia era presa fácil. Os campos que a ladeavam serviam não apenas de fronteira entre dois países mas eram também linha divisória entre a guerra e a paz, a fome e o alimento.


Vinham pela calada da noite em grupos, familias inteiras, silenciosas como predadores deixando atrás de si campos despidos de espigas, de batatas, de cenouras , de feijão de tudo quanto houvesse para matar a fome.


Homens da terra, habituados a tratá-la com desvelo, respeitavam tanto quanto podiam os campos assaltados, deixando-os como se as colheitas tivessem sido feitas como devido e no tempo certo. Não se tratava de vandalismo ou má intenção: era fome. Fome negra, fome sem sotaque. Fome simplesmente.