segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A JUSTIÇA ESPECTÁCULO




 

Desde tempos remotos que a justiça e a sua aplicação tem uma componente de espectáculo .

Recordemos as execuções públicas  e os autos de fé, com todo o envolvimento amoral e lúdico que os acompanhava.

 Esta justiça/espectáculo tem duas razões de ser: A primeira a de demonstrar que a lei se aplica a todos sem excepção  e a segunda como medida de prevenção e de desincentivação  por forma  a prevenir outros delitos.

Mas o lado perverso desta justiça em praça pública, que nos nossos dias é feita nos media e nas redes sociais, é o julgamento sem direito a defesa ou contraditório e a inevitável condenação, que perdura indelével, para todo o sempre.

Naturalmente que a função dum jornalista é informar . Mas informar objectivamente sem juízos de valor , nem pretensões jurídico-penais. O seu papel deve acabar nos Quem, Como, Onde, Porquê e Com que Efeito, sendo este último o que é imediatamente visível.

Mas a culpa desta justiça/espectáculo não pertence apenas aos profissionais dos media!
Os quinze segundos de fama atraem juízes, advogados , investigadores, comentadores, cidadãos anónimos todos eles com algo a dizer, a acrescentar ou apenas ( o que é pior!) a deixar “ no ar” com uma aura de suspeição que agrava ainda mais todo o processo.

Dois arguidos nos dois casos mediáticos da semana passada, foram detidos no aeroporto. É caso para dizer que os aeroportos se tornaram lugares de alto nível de perigosidade!!

Como não creio que estejam estipulados piquetes das televisões nas chegadas e partidas dos aeroportos, as detenções em locais tão públicos só pode ter uma razão : a ânsia de mediatização e protagonismo que estão na base das fugas de informação!

Sócrates é uma figura pública e como tal é normal que a sua prisão seja efectuada debaixo dos holofotes?  Desculpem lá mas não. E, repare-se, não tenho qualquer simpatia particular pela pessoa, que não conheço pessoalmente e caso se venha a provar que é de facto culpado deverá arcar com as consequências dos seus actos como qualquer cidadão.

Agora custava muito segui-lo até casa e ali, fora dos holofotes ( que estavam por uma coincidência total naquele momento naquele lugar!!!) fazerem a detenção?  Se a investigação tinha já algum tempo faria diferença meia hora a mais ou a menos ?

No caso do Director Nacional do SEF o circo foi exactamente o mesmo! Estava a ser investigado. Sabiam que ia embarcar para uma reunião fora do país. Não podiam tê-lo detido à porta de casa? Foi preciso o enxovalho pessoal defronte dos seus subordinados? Foi necessário lançar a suspeita de fuga?

Ninguém está acima da lei. Mas  também ninguém está abaixo dela e há direitos que temos que respeitar .Os arguidos têm direitos que não estão a ser respeitados nem protegidos.

Mal está a justiça se os investigadores, o MP e todos os intervenientes, decidirem fazer  a sua própria série de Lei e Ordem.  É que a vida não é um filme!!

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O CÃO QUE MORDEU O HOMEM






Aqui há semanas uma das “grandes” notícias era que um jovem tinha devolvido uma carteira que encontrara, com uma avultada quantia em dinheiro .

Quando questionado, limitou-se  a responder que o anormal seria que o não o fizesse e que não entendia a estranheza que o seu acto provocara.

Nos anos 80 ( do século passado!!) ensinavam-nos , a nós aspirantes a jornalistas, que a noticia era o homem que mordia o cão.

Hoje ao que parece, o que admira e faz correr tinta é a dentada do cão no homem.

O ministro da Administração Interna demitiu-se, apanhado na enxurrada do escândalo em torno de altas figuras da administração pública e toda a gente admira, felicita e tece os maiores elogios àa essa atitude !

Ora o estranho, o inadmissível, é que esta não seja a regra para todas as figuras públicas que vejam o seu nome manchado em praça pública por eventuais actos altamente gravosos ou ligações que possam pôr em causa o interesse nacional! Essa é que deveria ser a notícia!!

Mas não!

Já tomámos o moralmente repreensível, por normal.  Inverteu-se o paradigma do certo e errado no que às figuras públicas diz respeito. Não é pois de admirar que aquelas se sintam acima da Lei, impunes e inatingíveis. Foi esse o direito que lhes concedemos. Não nos queixemos pois de tanto homem a morder cães! Afinal à mulher de César pouco lhe importa se parece ou não séria. Sobretudo quando não o é.

Como tal Miguel Macedo fez o que devia ser feito. Não é caso para condecoração.